. Frustrada, Arya
atirou a escova ao chão. - Loba má! - gritou.
Sansa não conseguiu evitar um pequeno sorriso. O
mestre do canil lhe dissera uma vez que um animal
sai ao dono. Deu a Lady um pequeno e rápido
abraço. Lady lambeu-lhe o rosto. Sansa soltou um
risinho. Arya ouviu e deu meia-volta, olhando-a
furiosa.
- Não me interessa o que você possa dizer, eu vou
montar - seu longo rosto de cavalo tinha a expressão
teimosa que significava que faria algo de propósito.
-Juro pelos deuses, Arya, às vezes você não passa de
uma criança - Sansa a repreendeu. - Sendo assim, vou
sozinha. Vai ser muito mais agradável. Lady e eu
vamos comer todos os bolos de limão e passar sem
você o melhor dos dias. - Virou-se para se afastar,
mas Arya gritou às suas costas:
- Também não vão te deixar levar a Lady - e foi
embora, antes de Sansa conseguir pensar numa
resposta, perseguindo Nymeria ao longo do rio.
Só e humilhada, Sansa iniciou a longa caminhada de
volta à estalagem, onde sabia que Septã Mordane
estava à espera. Lady caminhava em silêncio ao seu
lado. Estava quase chorando. Tudo o que desejava
era que as coisas fossem agradáveis e bonitas, como
eram nas canções. Por que Arya não podia ser doce,
delicada e bondosa, como a Princesa Myrcella? Ela
gostaria de uma irmã assim.
Sansa nunca conseguira compreender como era
possível que duas irmãs, nascidas apenas com dois
anos de diferença, pudessem ser tão diferentes. Teria
sido mais fácil se Arya fosse bastarda, como o meio-
irmão Jon. Ela até era parecida com Jon, com o rosto
longo e os cabelos castanhos dos Stark, e nada de sua
mãe no rosto ou nas cores. E a mãe de Jon fora uma
mulher plebeia, ou pelo menos era isso que se
segredava. Uma vez, quando era pequena, Sansa até
chegou a perguntar à mãe se não teria havido algum
engano. Talvez os gramequins tivessem roubado sua
irmã verdadeira. Mas sua mãe limitara-se a rir,
dizendo que não, que Arya era sua filha e irmã
legítima de Sansa, sangue do sangue delas. Sansa
não era capaz de imaginar um motivo que levasse a
mãe a querer mentir sobre aquilo, e assim concluíra
que tinha de ser verdade.
Ao se aproximar do centro do acampamento, sua
aflição foi rapidamente esquecida. Uma multidão
tinha se reunido em torno da casa rolante da rainha.
Sansa ouviu vozes excitadas que zumbiam como uma
colmeia. Viu que as portas tinham sido escancaradas
e que a rainha estava no topo dos degraus de
madeira, sorrindo para alguém. Ouviu-a dizer:
- O conselho nos presta uma grande honra, meus
bons senhores.
- O que está acontecendo? - perguntou Sansa a um
escudeiro seu conhecido.
- O conselho enviou cavaleiros de Porto Real para
nos escoltar pelo resto do caminho - informou o
homem. - Uma guarda de honra para o rei.
Ansiosa por vê-los, Sansa deixou Lady abrir-lhe
caminho através da multidão. As pessoas afastavam-
se às pressas da loba gigante. Quando se aproximou,
viu dois cavaleiros que se ajoelhavam perante a
rainha, usando armaduras tão boas e esplendorosas
que a fizeram pestanejar.
Um dos cavaleiros usava um intricado conjunto de
escamas brancas esmaltadas, brilhante como um
campo de neve recém-caída, com relevos e fivelas de
prata que brilhavam ao sol. Quando tirou o elmo,
Sansa viu que era um homem idoso, de cabelos tão
alvos como a armadura, mas, apesar disso, parecia
forte e gracioso. De seus ombros pendia o manto de
um branco puro da Guarda Real.
O companheiro era um homem com perto de vinte
anos cuja armadura era uma placa de aço de um
profundo verde-musgo. Era o homem mais bonito em
que Sansa já pousara seus olhos; alto e de
constituição poderosa, com cabelos negros como breu
que lhe caíam sobre os ombros e rodeavam um rosto
escanhoado, e risonhos olhos verdes que combinavam
com a armadura. Aninhado debaixo do braço, estava
um elmo provido de chifres, cuja magnífica viseira
brilhava de ouro.
A princípio, Sansa não reparou no terceiro estranho.
Não estava ajoelhado como os outros. Estava em pé,
ao lado, junto aos cavalos dos recém-chegados, um
homem magro e sombrio que observava os
acontecimentos em silêncio. Tinha o rosto sem
barba, marcado pela varíola, olhos encovados e
bochechas descarnadas, Embora não fosse velho,
restavam-lhe poucas madeixas de cabelo, brotando
por cima das orelhas, mas deixara-o crescer como o
de uma mulher. Sua armadura era uma cota de
malha de um tom cinzento de ferro, posta sobre
camadas de couro fervido, simples e sem adornos,
que revelava a idade e o uso duro. Sobre o ombro
direito via-se o manchado punho de couro da lâmina
que trazia atada às costas, uma espada de duas
mãos, grande demais para ser presa ao flanco.
- O rei foi caçar, mas sei que ficará feliz em vê-los
quando regressar - dizia a rainha aos dois cavaleiros
que se ajoelhavam perante ela, mas Sansa não
conseguia tirar os olhos do terceiro homem. Ele
pareceu sentir o peso do seu olhar. Lentamente,
virou a cabeça. Lady rosnou. Um terror tão
esmagador como qualquer outra coisa que Sansa
Stark já sentira encheu-a de repente. Deu um passo
para trás e foi de